quinta-feira, 7 de junho de 2012

1. O Verão da minha infância.

O verão da minha infância cheira a aldeia. 
Sabe a terra e a frutas, às férias passadas em casas dos avós a ir com eles para as terras, aprender como funciona o campo, a brincar às escondidas, às apanhadas, ao policia e ao ladrão, a ir nadar para os tanques, a ir roubar fruta dos pomares com os putos da aldeia até às tantas da manhã e ninguém se preocupava, porque no meio da aldeia toda a gente sabia quem éramos e onde estávamos a qualquer hora do dia. Qual chips de localização para crianças, qual telemóveis, qual quê! Nada melhor que os velhotes para saber a nossa localização 24h por dia. Sabe a refrescos de café e de aguardente que o meu avô fazia, (sim, existe uma razão muito óbvia para eu ter saído assim!)  sabe a pão com requeijão e açúcar que a minha avó me fazia. E que se eu pedir com jeitinho ainda hoje são capazes de me fazer, mesmo mais velhos e com menos força do que naquela altura. Cheira a riacho, onde nos enfiávamos sempre que conseguíamos escapar dos avós que nos proibiam de ir para lá, cheira a amizades construídas, umas que ficaram, talvez para sempre, e outras que desapareceram com o tempo. Tem o som das tardes passadas em casa com a minha irmã em que ela me fazia ouvir todos os dias, as mesmas músicas dos Cds antigos do meu pai, músicas que eu ainda sei de cor passados tantos anos. Tem o som de "Chamava-se Nini" do Paulo Carvalho que ouvíamos vezes sem conta, porque é o nome como toda a gente trata a nossa mãe.  O verão da minha infância sabe a farturas, a algodão doce, cachorros quentes e caldo verde que comíamos todos os anos na feira de São Mateus. Tem o som dos carroceis, dos carrinhos de choque  e daqueles jogos de acertar nas coisas para ganharmos peluches, coisa que para minha infelicidade nunca aconteceu.Cheira a Paris, no sagrado mês de Agosto em que a minha família paterna vem toda de França para o tradicional mês de férias na terra e nos enchem de queijos, chocolates e presentes. (Eu gosto mesmo muito deles, mas as vergonhas que me fazem passar, as vergonhas!).E por fim, geralmente no fim do verão nos dias antes de começarem as aulas e em que eu já me estava a fartar da mesma rotina, com saudades da escola e a ansiar por estrear os cadernos e as canetas novas, começava a cheirar a mar, a saladas, a peixe grelhado e a sardinhadas. Ainda mais do que a feira de São Mateus e os tios de Paris de França, mais sagradas ainda eram as férias com os pais no Algarve, hábito que continuo a manter embora cada vez menos vezes com os meus pais.  A praia o dia inteiro, a comida boa, a  sangria em que me deixavam dar golos pequeninos de fugida, a escolha minuciosa de monte de livros que ia levar comigo, porque nessa altura não havia cá nada de portáteis ou telemóveis. O reencontro com os amigos "das férias no Algarve" e o passar lento daquelas duas semanas. 
O Verão da minha infância lembra-me a minha vida, a minha família e a felicidade de viver de forma simples. 
Era tão simples ser feliz naquela altura! 

4 comentários:

  1. O meu verão cheira-me mais a cidade e férias passadas em casas de amigos, porque aqui a Mariana é saloiazinha de uma aldeia bem lá para o fim do mundo! Mas é verdade, à medida que crescemos parece ser mais difícil ser feliz!

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  2. Adorei ler este post. Revi-me em algumas coisas. Realmente era muito mais simples. Concordo contigo =)

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  3. Caldo verde e sardinhas assadas. Deliciosas recordações.

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  4. Andávamos as duas pelas festas de são mateus, pergunto me se a tua aldeia será proxima da minha.

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