Todos os dias vejo cada vez mais pedidos de ajudas, pessoas que não têm o que vestir, que praticamente não conseguem pagar a casa e em casos extremos, nem dinheiro para comida têm. Pessoas que estão desesperadas e a quem pedir a ajuda de estranhos é a última opção.
E o que me assusta nisto tudo é que muitas delas não são pessoas que estragaram a vida. Não se meteram em vícios perigosos, não gastaram o dinheiro onde não deviam, não viviam acima das possibilidades.
Eram pessoas absolutamente normais, como eu, como vocês, como o meu vizinho do lado. Pessoas que tiveram o azar de ficar sem emprego, de não conseguirem arranjar mais nada e de ficarem sem o que conseguiram conquistar. Pessoas a quem uma imprevisibilidade lhes estragou tudo.
É por coisas destas que o imprevisível me dá um medo desgraçado. Porque sou aquela pessoa normal, que nunca passou dificuldades.
Embora não viva no luxo absoluto também não sei o que é não ter dinheiro sequer para os bens essenciais. Felizmente não sei o que é ter de esticar a carteira para a comida chegar ao fim do mês. Não sei o que é querer comprar um livro, uma camisola ou até mesmo ir ao cinema e não poder. E assusta-me muito a possibilidade de poder vir a ter de saber, a ter de ser uma dessas pessoas a quem a última opção foi pedir a ajuda de estranhos, mesmo que isso lhes custe a própria alma.
Assusta-me o imprevisível, assusta-me saber que estou bem agora e daqui a cinco minutos posso não estar e assusta-me mais ver cada vez mais gente a ser atingida com isso e não saber se um dia não serei eu também.
Ainda é muito tarde para ter cinco anos outra vez?
